Uma pesquisa realizada no interior de São Paulo preservou duas antigas simpatias para impinge. Uma utilizava cruzes; a outra, uma aliança. Conheça essas práticas da medicina popular brasileira.
A simpatia para tirar impinge faz parte das antigas práticas de medicina popular transmitidas entre famílias e benzedeiras brasileiras. Duas dessas práticas foram registradas por pesquisadores em 1974, no interior de São Paulo. Uma consistia em cercar a impinge com cruzes de tinta. A outra utilizava uma aliança para marcar os limites da lesão.
Esses costumes aparecem no estudo acadêmico A lógica subjacente às superstições e simpatias, publicado em 1976, que investigou as crenças e os procedimentos de cura preservados na tradição popular.
O registro permite conhecer como essas simpatias eram realizadas e compreender o significado dos elementos utilizados. Também é importante lembrar que impinge é o nome popular de algumas infecções de pele causadas por fungos, que precisam de tratamento adequado.
Como era feita a simpatia para tirar impinge com cruzes?
Uma das simpatias registradas pelos pesquisadores utilizava cruzes desenhadas ao redor da impinge.
Segundo o relato apresentado na página 56 do estudo, a prática consistia em cercar a lesão com cruzes de tinta. A crença era de que a impinge não ultrapassaria os limites estabelecidos pelas cruzes e, consequentemente, deixaria de aumentar.
O procedimento revela um elemento importante das antigas benzeções: a ideia de estabelecer um limite para aquilo que se desejava afastar.
A cruz, presente em diferentes práticas de benzimento de influência cristã, aparecia como um elemento de proteção e contenção. No caso da impinge, era utilizada para delimitar a região afetada.
Como realizar uma adaptação da simpatia sem aplicar tinta na pele?
Para quem deseja preservar a prática de fé, é possível realizar uma adaptação utilizando papel, sem colocar tinta ou qualquer outra substância sobre a lesão.
Essa é uma adaptação cuidadosa inspirada no registro histórico, e não uma transcrição do procedimento original.
- Separe uma folha de papel limpa e uma caneta.
- Desenhe um pequeno círculo para representar a região afetada pela impinge.
- Faça cruzes ao redor do círculo, mantendo a ideia de delimitação presente na simpatia antiga.
- Enquanto desenha, faça sua oração de proteção e cuidado, conforme sua fé.
- Guarde o papel em um local limpo e reservado, se desejar conservar o registro da oração.
Quem costuma acompanhar o gesto com palavras de fé pode fazer uma oração espontânea, pedindo proteção, saúde e serenidade.
É importante não utilizar tinta, caneta ou produtos de desenho diretamente sobre a impinge. A prática religiosa pode ser preservada sem interferir nos cuidados necessários com a pele.
Simpatia para tirar impinge com aliança: a segunda prática registrada
O mesmo estudo apresenta outra simpatia, atribuída à mesma informante de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
Dessa vez, o elemento utilizado era uma aliança.
De acordo com o registro, quando a impinge era pequena, a pessoa deveria pressionar a aliança sobre a região, marcando seus limites. A crença era de que a lesão não ultrapassaria a marca estabelecida pelo anel.
O procedimento era bastante simples, mas seu significado estava ligado à forma circular da aliança.
Qual era o significado da aliança nessa simpatia?
Os pesquisadores explicam que o círculo aparece em diferentes tradições religiosas e práticas populares como um elemento de delimitação.
Em algumas situações, delimita um espaço reservado à comunicação com o sagrado. Em outras, é empregado para separar ou conter aquilo que se considera prejudicial.
Na simpatia da impinge, a aliança representava justamente esse limite.
Segundo a interpretação apresentada no estudo, a forma circular seria uma maneira de estabelecer uma fronteira para a doença, impedindo, conforme a crença, que ela continuasse se espalhando.
É interessante perceber que as duas simpatias registradas apresentam uma mesma intenção: impedir o avanço da impinge. O que muda é o elemento escolhido para realizar a delimitação.
Como preservar essa prática de maneira cuidadosa?
Quem deseja realizar uma adaptação pode utilizar uma aliança limpa sobre uma folha de papel.
- Coloque a folha sobre uma superfície limpa.
- Posicione a aliança no centro do papel.
- Contorne a parte externa do anel com uma caneta.
- Retire a aliança e faça sua oração, mantendo o círculo como elemento central da prática.
Essa adaptação conserva a presença da aliança e a ideia de delimitação descrita na pesquisa, sem pressionar o metal contra uma região possivelmente infectada.
O que essas simpatias revelam sobre os antigos conhecimentos das benzedeiras?
As duas práticas foram preservadas em uma pesquisa de campo sobre medicina popular realizada durante o ano de 1974.
O levantamento envolveu 54 cidades da região da Mogiana e reuniu aproximadamente 1.600 receitas populares, incluindo remédios caseiros e simpatias.
O estudo, assinado por Silvia M. S. de Carvalho, Oswaldo M. Ravagnani e Antônio Talora Delgado Sobrinho, procurou compreender a lógica presente nas crenças populares.
Em vez de apresentar as simpatias como uma sequência de gestos sem relação entre si, os pesquisadores examinaram como os elementos empregados se conectavam às formas de compreender o mundo, a religião, a natureza e as doenças.
Nas duas simpatias para impinge, a ideia de delimitação ocupa uma posição central.
Na primeira, as cruzes cercavam a região afetada. Na segunda, a aliança estabelecia uma fronteira circular.
Essa associação entre determinados elementos e a intenção de afastar um mal também aparece em outras práticas de benzimento documentadas no estudo.
Um exemplo é a antiga benzeção com sal para quebrante, registrada entre as receitas de uma benzedeira entrevistada pelos pesquisadores. Para conhecer essa outra manifestação da medicina popular brasileira, confira como tirar quebranto segundo a tradição das benzedeiras.
Os relatos ajudam a preservar conhecimentos que circularam durante gerações, principalmente por meio da convivência familiar e dos ensinamentos transmitidos oralmente.
Fonte histórica: CARVALHO, Silvia M. S. de; RAVAGNANI, Oswaldo M.; DELGADO SOBRINHO, Antônio Talora. A lógica subjacente às superstições e simpatias. Perspectivas: Revista de Ciências Sociais, v. 1, 1976, p. 45–62. As simpatias para impinge aparecem na página 56, com explicação complementar sobre o círculo na página 57.
O que é impinge e por que ela aparece na pele?
Impinge, também chamada de impingem, é um nome popular utilizado para algumas infecções superficiais da pele provocadas por fungos.
Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, a condição pode atingir diferentes regiões do corpo e costuma provocar lesões avermelhadas, descamação e coceira.
Uma de suas apresentações mais conhecidas é a lesão arredondada, que pode aumentar gradualmente e apresentar bordas mais evidentes.
Dependendo da região afetada e da tonalidade da pele, a aparência pode variar.
A transmissão pode ocorrer pelo contato direto com uma pessoa infectada, pelo compartilhamento de toalhas e roupas ou pelo contato com animais que apresentam infecção por fungos.
Entretanto, nem toda mancha arredondada é uma impinge. Outras condições dermatológicas podem apresentar características semelhantes, razão pela qual o diagnóstico correto é importante.
A simpatia para impinge substitui o tratamento da pele?
As simpatias apresentadas neste conteúdo são registros de práticas culturais e religiosas. O estudo histórico documenta sua existência e procura compreender a lógica das crenças, mas não demonstra que as práticas eliminem os fungos responsáveis pela infecção.
O cuidado com a impinge depende da identificação adequada da condição.
Segundo as orientações dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), infecções fúngicas superficiais da pele geralmente são tratadas com medicamentos antifúngicos.
Dependendo da localização e da extensão, o tratamento pode envolver cremes ou outros medicamentos, utilizados pelo período indicado por um profissional de saúde. Em muitas micoses superficiais, esse período é de duas a quatro semanas.
Lesões extensas, recorrentes ou localizadas no couro cabeludo podem exigir cuidados específicos.
Durante esse período, algumas medidas ajudam a evitar a transmissão e a disseminação da infecção:
- Manter a região afetada limpa e seca.
- Evitar compartilhar toalhas, roupas e outros objetos de uso pessoal.
- Lavar as mãos depois de tocar na região afetada.
- Evitar coçar ou manipular a lesão.
- Seguir corretamente o tratamento indicado, mesmo quando os sintomas começarem a melhorar.
Também é importante não aplicar álcool, água sanitária, substâncias corrosivas ou misturas caseiras irritantes sobre a pele.
Pomadas com corticoides não devem ser utilizadas por conta própria em uma lesão suspeita de micose, pois podem piorar a infecção e dificultar seu reconhecimento.
Procure atendimento de saúde se a lesão estiver aumentando, apresentar dor intensa, pus, inflamação importante ou não melhorar com o tratamento adequado. Lesões no couro cabeludo também precisam de avaliação profissional.
Para quem cultiva a tradição das benzedeiras, a simpatia pode permanecer como uma expressão de fé e de continuidade dos ensinamentos familiares. O cuidado espiritual e o tratamento da pele podem fazer parte da mesma atenção dedicada ao próprio bem-estar.
Preservar as simpatias também é preservar a memória das benzedeiras
As simpatias para tirar impinge com cruzes e aliança revelam como pequenos elementos do cotidiano faziam parte das práticas de fé e cuidado das comunidades brasileiras.
Uma cruz desenhada, uma aliança e uma oração podiam carregar conhecimentos transmitidos por mães, avós e benzedeiras.
Ao registrar essas práticas em 1974, os pesquisadores contribuíram para que parte desse patrimônio cultural permanecesse acessível às gerações seguintes.
Conhecer sua origem, compreender seus elementos e preservar os relatos com fidelidade é uma maneira de respeitar a memória de quem manteve essas tradições vivas.
Cartomante, neta de benzedeira e estudiosa das crenças populares brasileiras, da espiritualidade e das religiões de matriz africana. Em sua caminhada, tem Maria Odara como entidade espiritual de referência, força que inspira proteção, abertura de caminhos, prosperidade e consciência do próprio valor. Produz conteúdos que unem oráculo, fé, cultura popular e respeito aos fundamentos espirituais.


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