Oração para cobreiro: conheça a reza antiga de uma benzedeira registrada em 1974

A oração para cobreiro faz parte das antigas benzeções brasileiras, transmitidas por gerações de benzedeiras que recorriam à fé e às palavras de poder para pedir o afastamento das enfermidades. Uma dessas rezas foi registrada em 1974, durante uma pesquisa sobre medicina popular no interior de São Paulo.

A oração foi ensinada por uma benzedeira de 82 anos, moradora de uma fazenda em Pitangueiras (SP). Suas palavras invocam o corte do cobreiro, da cabeça ao rabo, para impedir que o mal continue avançando.

Preservada em um estudo acadêmico publicado em 1976, essa benzeção permite conhecer uma prática de fé que atravessou gerações e permanece presente na memória de muitas famílias brasileiras.

Qual é a oração para cobreiro ensinada pelas benzedeiras?

A oração aparece no estudo A lógica subjacente às superstições e simpatias, de Silvia M. S. de Carvalho, Oswaldo M. Ravagnani e Antônio Talora Delgado Sobrinho.

Os pesquisadores reuniram relatos de medicina popular em 54 cidades durante 1974, recolhendo aproximadamente 1.600 receitas que incluíam remédios populares e simpatias.

Entre os registros está uma benzeção para cobreiro ensinada por M. S., uma benzedeira de 82 anos, viúva, que vivia na Fazenda São Thomás, em Pitangueiras, no interior paulista. O relato foi recolhido por Rita de Cássia Sanchez.

A oração foi preservada na página 55 do estudo e apresenta um diálogo entre a benzedeira e a pessoa que recebe o benzimento.

Oração tradicional para cortar cobreiro

Benzedeira: Que corta?

Pessoa: Cobreiro.

Benzedeira: Isto mesmo que eu corto?

Pessoa: Cobra, cobrão, sapo, sapão e bicho de toda Nação.

Benzedeira: Eu corto e corto e torno a cortar a cabeça e o rabo para não tornar a brotar.

Essa é a reza registrada pelos pesquisadores, com a sequência das falas preservada e a pontuação organizada para facilitar a leitura.

O registro mostra que a benzeção era conduzida como uma conversa. A benzedeira perguntava o que deveria cortar, e a pessoa respondia, participando diretamente do pedido de afastamento do mal.

Como fazer a oração para cobreiro?

Na tradição documentada, a oração acontece por meio de um diálogo entre quem benze e quem recebe a benzeção.

Para reproduzir essa forma de rezar, a pessoa que conduz o benzimento pronuncia a primeira pergunta: “Que corta?”. Quem recebe a oração responde: “Cobreiro”.

Em seguida, a benzedeira pergunta novamente o que está cortando, e a pessoa responde com os nomes dos animais mencionados na reza.

A oração termina com as palavras que pedem o corte da cabeça e do rabo do cobreiro, para que ele não volte a brotar.

Se você deseja fazer a oração individualmente, pode ler as duas partes do diálogo, colocando sua intenção de fé nas palavras pronunciadas.

O estudo não estabelece uma quantidade obrigatória de repetições, um horário específico ou a necessidade de utilizar ervas, velas e outros materiais nessa benzeção.

Por que a oração para cobreiro fala em cortar a cabeça e o rabo?

Para compreender essa benzeção, é importante conhecer a maneira como o cobreiro era interpretado em diferentes comunidades rurais brasileiras.

Na medicina popular, o aparecimento de lesões que avançavam pela pele podia ser associado a animais como cobras, sapos e outros bichos.

Essas associações aparecem nas palavras da oração, que reúne expressões como “cobra, cobrão, sapo, sapão e bicho de toda Nação”.

Na lógica tradicional do benzimento, o mal é tratado como algo que precisa ter sua continuidade interrompida. Por isso, a oração menciona tanto a cabeça quanto o rabo.

A intenção expressa pelas palavras é impedir que o cobreiro continue crescendo ou volte a se manifestar.

O significado do corte nas benzeções antigas

Os autores do estudo explicam que a ideia de cortar ou separar o mal aparece em diferentes simpatias e benzeções brasileiras.

Na análise apresentada pelos pesquisadores, determinadas doenças eram representadas como algo que poderia ser retirado da pessoa por meio de palavras, gestos ou objetos associados ao ritual.

A oração para cobreiro apresenta essa mesma concepção de maneira bastante clara: a benzedeira pronuncia o corte, nomeia aquilo que deseja afastar e encerra a reza pedindo que o mal não volte a brotar.

Essa forma de rezar revela a importância que a palavra pronunciada possui na tradição das benzedeiras.

As expressões aprendidas com pessoas mais velhas preservam os fundamentos de práticas que, durante muito tempo, circularam principalmente pela transmissão oral.

Quem era a benzedeira que ensinou essa oração?

O registro permite conhecer alguns detalhes da mulher responsável por transmitir a benzeção.

A informante foi identificada pelas iniciais M. S. e tinha 82 anos quando seu relato foi recolhido. Era viúva e vivia na Fazenda São Thomás, em Pitangueiras, no estado de São Paulo.

O estudo não apresenta seu nome completo nem permite reconstruir sua trajetória pessoal. Entretanto, preserva outras rezas atribuídas à mesma benzedeira.

Entre elas aparecem benzeções para dor de cabeça, quebrante e outros males reconhecidos na medicina popular.

O registro do quebrante, por exemplo, apresenta uma oração com o Alecrim Sagrado e o uso de sal durante a benzeção. Essa prática também foi preservada pelos pesquisadores e pode ser conhecida no conteúdo sobre como tirar quebranto com a reza tradicional de uma benzedeira.

Esses relatos ajudam a compreender a diversidade das práticas de uma mesma benzedeira e a importância de preservar as palavras transmitidas por pessoas que fizeram da oração uma parte de sua vida.

O cobreiro pode ser tratado apenas com oração?

O cobreiro, frequentemente identificado na medicina como herpes-zóster, é uma doença causada pela reativação do vírus varicela-zóster, o mesmo responsável pela catapora.

Segundo o Ministério da Saúde, a doença pode provocar dor, ardência, formigamento e pequenas bolhas sobre uma área avermelhada da pele.

As lesões costumam aparecer em uma faixa localizada, frequentemente em apenas um lado do corpo.

O tratamento médico pode incluir medicamentos antivirais, conforme a avaliação do profissional de saúde. Esses medicamentos apresentam maior efetividade quando iniciados precocemente, especialmente nas primeiras 72 horas após o aparecimento das lesões.

Por isso, quem apresentar sinais de cobreiro deve procurar atendimento médico o quanto antes. Não é necessário esperar o término de uma sequência de orações para buscar avaliação.

A atenção deve ser imediata quando as lesões estiverem próximas dos olhos, houver alterações na visão, dor intensa ou aparecimento de bolhas em várias regiões do corpo. Gestantes e pessoas com imunidade comprometida também precisam de avaliação médica diante da suspeita da doença.

Durante a fase em que existem bolhas, é importante evitar contato direto com as lesões. O vírus pode ser transmitido a pessoas suscetíveis, provocando catapora em quem nunca teve a doença nem recebeu vacinação contra ela.

Quem deseja receber a benzeção pode fazê-lo sem que outra pessoa toque nas feridas ou aplique substâncias sobre a pele machucada.

A oração pode permanecer como parte da vivência religiosa e familiar, acompanhando os cuidados necessários à recuperação.

A importância de preservar as  orações das benzedeiras brasileiras

O registro de 1974 permite que uma oração ensinada por uma mulher do interior paulista continue sendo conhecida muitas décadas depois.

É uma pequena parte da história da medicina popular brasileira, construída também por mulheres que aprenderam a benzer com mães, avós, familiares e outras pessoas de suas comunidades.

Nem todas as benzedeiras utilizam as mesmas palavras. As rezas podem apresentar diferenças conforme a região, a família, a tradição religiosa e os ensinamentos recebidos.

A oração preservada nesse estudo representa uma dessas formas de benzer, com suas palavras, seu diálogo e sua maneira particular de pedir que o cobreiro seja cortado.

Guardar esse registro é também reconhecer o conhecimento transmitido pelas gerações anteriores e permitir que suas orações continuem fazendo parte da memória e da fé popular brasileira.

Fonte histórica: CARVALHO, Silvia M. S. de; RAVAGNANI, Oswaldo M.; DELGADO SOBRINHO, Antônio Talora. A lógica subjacente às superstições e simpatias. Perspectivas: Revista de Ciências Sociais, v. 1, 1976, p. 45–62. Benzeção para cobreiro: p. 55, nota 32.

Fonte de saúde: Ministério da Saúde. Herpes (Cobreiro): sintomas e tratamento.